
A escultura "A língua da terra", de Alejandra Dawi, toma como base um texto anônimo africano que exalta a capacidade da linguagem, no caso da música, como instrumento de individuação e de reafirmação da existência de um povo:
“Quando uma mulher de uma determinada tribo da África sabe que está grávida, ela entra na floresta com outras mulheres e elas oram e meditam até que a música apareça.
Quando a música surge, elas cantam e cantam e, em seguida, retornam à tribo e ensinam a todos.
Quando a criança nasce, a comunidade conhece e canta essa música, que acompanhará a pessoa em todas as etapas de sua vida: infância, adolescência, juventude, casamento.
E quando essa pessoa está deixando este mundo, familiares e amigos cantam a música para acompanhá-lo em sua jornada ...
Se, em algum momento de sua vida, a pessoa comete um ato aberrante, ela vai para o centro da cidade e a comunidade faz um círculo ao seu redor e canta sua música.”
A peça de Alejandra Dawi, dessa maneira, consegue articular a imagem de um grupo de índios em extinção com grafismos em baixo relevo de conteúdo simbólico. Assim, a palavra surge como a língua que permite que uma comunidade sobreviva e se eternize.
Pelo idioma, com todo suas conotações e simbolismos, e pelo vigor da força da natureza e da terra, ou seja, o começo e o fim mitológico de tudo, a obra ganha consistência metafórica e força plástica. A língua da terra vence o tempo e perpetua a vida.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.