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A língua da terra

A língua da terra
31/08/2019

A escultura "A língua da terra", de Alejandra Dawi, toma como base um texto anônimo africano que exalta a capacidade da linguagem, no caso da música, como instrumento de individuação e de reafirmação da existência de um povo:

 

“Quando uma mulher de uma determinada tribo da África sabe que está grávida, ela entra na floresta com outras mulheres e elas oram e meditam até que a música apareça.

 

Quando a música surge, elas cantam e cantam e, em seguida, retornam à tribo e ensinam a todos.

 

Quando a criança nasce, a comunidade conhece e canta essa música, que acompanhará a pessoa em todas as etapas de sua vida: infância, adolescência, juventude, casamento.

 

E quando essa pessoa está deixando este mundo, familiares e amigos cantam a música para acompanhá-lo em sua jornada ...

 

Se, em algum momento de sua vida, a pessoa comete um ato aberrante, ela vai para o centro da cidade e a comunidade faz um círculo ao seu redor e canta sua música.”

 

A peça de Alejandra Dawi, dessa maneira, consegue articular a imagem de um grupo de índios em extinção com grafismos em baixo relevo de conteúdo simbólico. Assim, a palavra surge como a língua que permite que uma comunidade sobreviva e se eternize.

 

Pelo idioma, com todo suas conotações e simbolismos, e pelo vigor da força da natureza e da terra, ou seja, o começo e o fim mitológico de tudo, a obra ganha consistência metafórica e força plástica. A língua da terra vence o tempo e perpetua a vida.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.