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diárias de bordo

O risco da cultura

O risco da cultura
06/08/2019

O romance “A livraria”, de Penelope Fitzgerald, ao ser levado para o cinema, sob a segura direção da espanhola Isabel Coixet, com a propositalmente contida Emily Mortimer, no papel principal, traz importantes discussões sobre o papel da cultura no mundo contemporâneo. Ambientado nos anos 1950, obriga a refletir sobre a sociedade que queremos.

A obra se passa numa pequena localidade inglesa dos anos 1950. Uma jovem viúva decide abrir uma livraria sem perceber que essa ação contraria os desejos de uma poderosa habitante que deseja inaugurar no mesmo local um centro de artes. Logo fica claro que a preocupação não é com a cultura da comunidade, mas com a vaidade de cada um.

O alerta vale muito para ter uma visão mais completa da complexidade da cultura. Não basta ter boas intenções ou iniciativas. Elas se articulam dentro de um contexto maior caracterizado pelas forças políticas e sociais. Um dado interessante é, por exemplo, a reação das pessoas da comunidade à venda do polêmico livro “Lolita”, de Nabokov.

A presença do conservadorismo se manifesta nas diversas maneiras de reação a uma literatura que foge do tradicional, seja pelas filas na frente da vitrine seja pelo conteúdo que aborda a sexualidade com uma sensualidade pouco comum à época. No conjunto, o filme apresenta uma questão essencial: lidar com cultura significa mexer com padrões preestabelecidos. E isso nem sempre é visto com bons olhos.      

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e pós-doutorando e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.