
O pintor italiano Antonio Zanchi (1631 - 1722), ligado às técnicas do barroco, é um dos grandes artistas do período em Veneza, embora tenha atuado em outras cidades de seu país e na Bavária. ‘A Virgem Aparece para a Peste Abandonada’ é uma de suas obras-primas. Trata-se de uma pintura monumental realizada na escadaria da Scuola Grande di San Rocco de Veneza.Realizada em 1666, apresenta numerosos personagens ambientados nos canais da cidade italiana. Eles estão distribuídos dentro do universo simétrico e arquitetônico de edifícios e pontes. É claro: também estão ali as gôndolas. Toda essa beleza contrasta com os cadáveres empilhados nas diversas áreas da obra.A presença do gondoleiro evoca Caronte, o mítico barqueiro que conduz as almas ao inferno. Em contraste, surgem seres divinos a proteger a cidade da peste. A corte de anjos reforça a ideia da presença divina necessária para afastar a morte de modo que a cidade possa ressurgir.Pintada 35 anos após o fato real, a obra tem a coragem de relembrar aos cidadãos o que tinha acontecido. Não só exalta o sagrado, como, de maneira operística, bem ao gosto da época, revive na memória de muitos um acontecimento histórico. O fazer clássico, o gosto da cidade pelo espetáculo e a exaltação da cidade surgem, assim, unidos.Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.