


Entender a arte como uma instância política é uma decisão rica em possibilidades, pois um grande risco visual está em cair em realizações panfletárias ou herméticas. E ambas pouco enriquecem a produção estética. O segredo está em lidar com dimensões plásticas e com as políticas, no sentido de questionar, apreender o mundo e aprender com ele.
Quando a artista Erica Sanches apresenta uma mesa posta com figuras de mulheres negras de destaque nos pratos, questiona justamente quem se senta à mesa nas grandes ocasiões. Trata-se de uma maneira de colocar a cultura negra no centro das atenções, não como um universo periférico que precisa ser episodicamente valorizado.
A mesma postura política, no sentido de conduzir e propor uma discussão, pode ser vista em grupos de totens, com nomes e imagens alusivos a árvores. Além do formato de tronco aludir à festa indígena sagrada do Kuarup, existe ali a valorização de uma visão de mundo que valoriza as ancestralidades.
A disposição de objetos em formato de círculo aponta para o contar histórias dentro de tradições ágrafas orais. Nessa mesma linha de pensamento, esculturas de mulheres com distintos adornos na cabeça são documentos de distintas interpretações em saberes que precisam ser constantemente revistos e discutidos para não serem perdidos.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.