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Ciência e caridade

Ciência e caridade
04/03/2019

Poucos quadros ilustram tão bem a necessidade que um doente tem simultaneamente de tratamento médico científico e de apoio espiritual como ‘Ciência e Caridade’ (1897), de Pablo Picasso (1881 – 1973), uma das obras mais importantes expostas no Museu Picasso de Barcelona, Espanha. É essencial lembrar que o quadro foi pintado quando Picasso tinha apenas 16 anos e era estudante na Escola de Belas-Artes La Lonja, em Barcelona. A obra recebeu medalha de ouro na Exposição Provincial de Belas Artes de Málaga e foi menção honrosa na Exposição Nacional de Arte de Madrid.A pintura contribuiu para a admissão do jovem na Academia Real de Artes São Fernando, na capital espanhola, onde Picasso estudou até 1898, quando abandonou o curso ao contrair escarlatina. O tema foi provavelmente sugerido pelo pai de Picasso, que era professor de pintura e desenho e incentivava o filho a pintar temas comerciais.Cada personagem tem curiosidades. A modelo para a enferma foi a irmã de Pablo, Dolores Ruiz, apelidada carinhosamente por ele de "Lola". Para o médico, foi o próprio pai do artista. Para filha da docente, foi contratada a filha de um mendigo e, para pintar a freira, foi utilizado o hábito de uma amiga, vestido por um jovem.O quadro evoca ainda dois episódios biográficos de Pablo. A criança prestes a ficar órfã encontra um paralelo em Conchita (Concepción), irmã do pintor, morta em consequência de difteria em 1891, com quatro anos. A obra, além disso, ficou por muito tempo na sala de visitas do tio paterno de Picasso. Ao que se sabe, esse médico, Dr. Salvador, com o perdão do simples trocadilho, salvou a vida de Picasso, que fora dado morto logo após o nascer. Enquanto a parteira cuidava da mãe, o tio foi chamado, evitando que o futuro artista morresse asfixiado com secreção e líquido amniótico. As presenças do médico, cuidando de maneira concentrada da paciente, e da freira, com a missão de dar conforto espiritual e de promover a humanização, constituem uma fusão que traz uma visão completa do atendimento médico. Acima de tudo, porém, o talento do jovem Picasso impressiona, anunciando um futuro ímpar.Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.