
A destruição pode ser uma forma de construção? A pergunta pode parecer paradoxal, mas se aplica perfeitamente ao trabalho ‘Dropping a Han Dynasty Urn’ (‘Deixando cair uma urna da dinastia Han’), de um dos principais nomes da arte contemporânea, o chinês Ai Weiwei.
Perseguido pelas autoridades de seu país natal devido a sua visão crítica, nessa obra, originalmente de 1995, ele derruba intencionalmente uma urna cerimonial de cerca de 2.000 anos, da Dinastia Han, período da história da civilização chinesa. A versão do ato em três fotografias teve diversas recriações, sendo a exposta no Brasil, em São Paulo, no Parque do Ibirapuera, até 20 de janeiro, feita com peças de Lego que constroem as três imagens: do artista segurando a urna, dela caindo e dela se despedaçando.
A ação, crítica às ações do governo chinês de destruição imprudente de relíquias culturais, por questões políticas, sem uma reflexão sobre a sua importância para a humanidade, apresenta diversos méritos. Talvez o principal seja justamente o de chocar pela quebra do objeto. Mas essa ação, que desperta a atenção, lança um olhar sobre uma violência muito maior ao patrimônio material cultural da humanidade.
Quebrar um objeto, portanto, pode ser uma forma de levantar uma bandeira e defender uma causa. Seja na forma de fotografia, vídeo ou com Lego, material lúdico e universal, em que cada peça é metáfora também de um pedaço da urna quebrada, a ação mostra que dos cacos pode surgir uma nova civilização e um renovado pensar. E esse é um grande ensinamento que o artista chinês joga em nossa cara.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.