
Se existe um grande mistério a ser desvendado pela arte, é o de compreender a vida e sua utilidade ou inutilidade. O mesmo vale para a morte como fim de tudo ou como começo de algo que não se sabe exatamente o que é. E, entre esses dois pontos, está a jornada que é construída a cada momento.
Na 33ª Bienal de Arte de São Paulo, o norte-americano Matt Mullican (1951) colocou, em uma das paredes, uma lista de frases que ilustram todo esse processo de maneira nua e crua, mas sem perder o lirismo. A obra ‘Untitled’ (‘Birth to Death List’), de 1973, traz assim as ações de uma mulher anônima desde o começo ao término de seus dias.
Uma das curiosidades está na delicada percepção de que situações que a criança vivencia no início de sua jornada se repetem ao final, bem na linha de que o idoso, próximo aos últimos momentos, torna-se, sob certos aspectos, uma criança nas inseguranças e necessidades de cuidados.
Ao fazer uma lista que aponta muitos aspectos psicológicos, e não meramente físicos, o artista consegue interação do público, pois é impossível que cada um não busque identificar em qual momento está da lista de uma jornada em que momentos felizes e tristes se alternam.
E, nesse instante, torna-se inevitável, não correr os olhos pelo texto todo e verificar quantas frases faltam para o final. A ideia do projeto como um todo parece simples, mas, longe de ser simplista, tem a densidade das obras inesquecíveis, aquelas que nos tornam pessoas melhores a cada instante.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.