
Relações entre mãe e filho podem ser extremamente complexas. É o que mostra o romance autobiográfico ‘Promessa ao amanhecer’, de Romain Gary. Ao ser levado ao cinema por Eric Barbier, conta a história de um dos escritores mais carismáticos do século XX, com vivências como romancista, piloto da Segunda Guerra Mundial, diretor de cinema e diplomata.
Nascido na Lituânia, em 1914, Gary cometeu suicídio em Paris, em 1980. Entre esses dois fatos, pelo menos uma conquista admirável: é o único até hoje a receber duas vezes o Prêmio Goncourt, o mais importante da literatura em língua francesa, em 1956 e 1975, sendo este último sob o pseudônimo de Émile Ajar.
O filme mostra como essa trajetória se deve em boa parte à determinação da mãe de Romain, que nunca deixou que o menino abaixasse a cabeça, mesmo sendo humilhado tanto por não ser de uma família nobre como por ser judeu. A atriz Charlotte Gainsbourg defende o papel com uma energia inesquecível, em cenas marcantes que pontuam a biografia do filho.
A ambivalência entre ser uma madona possessiva e uma carinhosa incentivadora caminham lado a lado de maneira desafiadora para o público. Muito além de detestar ou admirar essa mãe, está a o estímulo para pensar e avaliar as decisões por ela tomadas, que vão desde uma erudita formação da infância do escritor, que incluíram etiqueta e danças de tango, até a participação dele na Segunda Guerra, com atos de heroísmo como a mãe imaginara. Filme forte e envolvente para não esquecer, com temas para pensar eternamente!
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.