
A obra visual de Marília Navickaite tem duas vertentes que, embora posam parecer distantes, são complementares. Uma delas, que surge aparentemente como um ponto mais forte, é a ilustração de paisagens urbanas. Mas existe uma outra, mais lírica, que valoriza objetos, como máquinas de escrever ou de fazer café.
Esses aspectos são complementares no sentido que mostram uma devoção pelo cotidiano, não no sentido religiosos do termo, mas sim de observação atenta. A maneira da artista observar aquilo que nos cerca está marcada por uma poética em que a principal característica está na habilidade de lançar um olhar em que menos é sempre mais.
A procura pela concisão se faz presente, por exemplo, na eliminação de fundos que possam distrair o observador do foco central, ou seja, a imagem colocada em primeiro plano. A inteligência visual de Marília está justamente em selecionar, pelo seu olhar o eixo visual a ser privilegiado.
Feito isso, a artista traz em seu olhar uma limpeza que contribui para dar um tom realista, mas, ao mesmo tempo, próximo do fantástico, nas suas representações, seja de locais conhecidos como daquilo que vemos no dia a dia.
Essa mescla saudável entre o local reconhecível e uma atmosfera fantástica, aliada a uma apurada técnica torna seu trabalho merecedor de segundos e terceiros olhares.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.