
A mente humana é capaz de criar as mais variadas concepções de mundo, muitas delas cristalizadas em imagens. É o caso do artista norte-americano Henry Darger (1892 – 1973). Ele viveu anônimo em Chicago trabalhando na área da limpeza, mas, em paralelo, desenvolveu uma das mais extensas e menos conhecidas obras do século XX: um manuscrito de 15.145 páginas.
Intitulado ‘The Story of the Vivian Girls, in What is Known as the Realms of the Unreal, of the Glandeco-Angelinian War Storm, Caused by the Child Slave Rebellion’, o livro é acompanhado de centenas de aquarelas e desenhos que serviam como ilustração da história, para muitos associada à loucura ou à pedofilia.
A obra, apenas trazida à tona após a sua morte, foi realizada durante 43 anos. Conta como as garotas Vivian lutavam para libertar crianças escravas das mãos de adultos que não acreditavam em nenhum Deus. As imagens de batalhas entre os grupos apresentam, cenas de morte e estrangulamento e meninas fugindo, muitas nuas e com pênis.
As ilustrações da obra são feitas com colagens de fotografias de revistas e quadrinhos recolhidos no lixo. Autodidata, Draher fazia suas aquarelas sobre papel barato, como o de embrulhar pão, chegando a realizar obras de 3 metros com imagens na frente e no verso.
Diagnosticado como doente mental, abandonado pela família, passou a infância e a adolescência em lares adotivos e instituições que recebiam crianças rejeitadas. Fugiu e se fixou em Chicago, mergulhado entre os serviços de limpeza, a busca de revistas no lixo e as idas diárias à igreja católica.
Os trabalhos de Henry Darger expostos na 33º Bienal de Arte de São Paulo abrem uma porta para um infinito de interpretações. Como ele criou esse universo pleno de sentido interno e de referências, biográficas ou não, inimagináveis? O que esse homem pensou? E como interpretar, sem ser leviano, o rico universo que nos legou? Que desafio para os que desejam conhecer melhor a mente humana...
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.