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O mistério de criar

O mistério de criar
31/10/2018

A expressão “baseado em fatos reais” tornou-se um rótulo que geralmente tende a despertar a atenção sobre livros ou filmes. Boa parte do público parece cada vez menos preparada a aceitar a ficção em si mesma, vendo-a até como perda de tempo, e prefere aquelas narrativas que teriam em tese acontecido, como biografias, por exemplo.

O romance ‘Baseado em fatos reais’, da escritora francesa Delphine de Vigan, lida justamente com essa ambiguidade. Conta uma história que se assemelha muito a de si mesma enquanto romancista, mas os limites entre o real e o imaginário se diluem numa atmosfera próxima do suspense e do terror.

O filme homônimo, dirigido por Roman Polanski, conta com duas atrizes de grande carisma, Emanuelle Seigner e Eva Green, respectivamente, no papel de uma escritora em crise criativa e de uma ghost writer, que se aproxima da primeira numa relação vampiresca e sensual, entre múltiplas conotações possíveis.

É geralmente nessas zonas obscuras que o diretor polonês realiza justamente seus melhores trabalhos. Os olhares que sugerem o falado; o não-dito, mas sugerido; e o não-feito, mas desejado, são o seu campo de atuação mais preciso. As potencialidades da mente humana de criar, potencializar ou anular situações tensas, nesse universo, criam um universo ficcional denso e tenebroso, que a arte, em sua infinita capacidade de surpreender, auxilia a rever criticamente.

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais e doutor em Educação, Arte e História da Cultura, é Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo