
Não são poucos os que acham festas situações aborrecidas em que os convidados muito mais competem entre si e se agridem moralmente do que celebram alguma coisa. Essa é justamente a visão da diretora Sally Potter no filme inglês ‘A festa’, com um elenco em que se destaca Kristin Scott Thomas.
Ela interpreta uma ativista política inglesa nomeada para o cargo de Ministra da Saúde. Ao longo do filme, descobre que seu marido, que repentinamente declara ter uma doença terminal, a traía com uma de suas melhores amigas. Os outros convidados também têm seus podres revelados, que incluem separações, relações tensas e medo de comprometimento mais sérios e duradouros.
O painel social do filme apresenta um retrato da sociedade contemporânea marcado por elos tensos em que pouco se sabe de fato sobre os outros, por mais que as pessoas estejam próximas por relações afetivas. As ideias falam mais forte que os sentimentos, talvez porque pareçam ser um campo mais seguro e exato, em que cada um pode se defender melhor.
Nesse aspecto, é curioso verificar como discussões sobre o sistema de saúde (público ou privado); formas de ganhar dinheiro (trabalho intelectual ou mundo das finanças); atitude existencial (pacifismo ou violência); e medicina (oriental ou ocidental) pontuam a narrativa. É nesses temas externos a suas necessidades existenciais primeiras e primárias de afeto que os personagens se escondem para fugir de suas emoções internas.
Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura.