
Um dos maiores desafios contemporâneos está em manter sempre viva a capacidade de mudar. A ópera rock ‘Tommy’, do The Who, alerta para isso. Primeiro trabalho musical explicitamente chamado desta maneira, foi composta pelo guitarrista, Pete Townshend, com participação do baixista John Entwistle e uma canção antiga de blues do músico Sonny Boy Williamson II.
A narrativa é sobre Tommy. Seu pai é assassinado pelo amante da esposa quando, dado como morto na Primeira Guerra Mundial, retorna. O menino de sete anos presencia a cena por meio de um espelho e se torna surdo, cego e mudo. Sofre diversos tipos de abusos e bullying, mas revela uma habilidade de jogar fliperama que lhe dá fama mundial.
Ele recupera o pleno funcionamento dos sentidos quando a mãe quebra o espelho que mostra a sua imagem. Torna-se então uma espécie de guru dos jovens, mas suas decisões autoritárias e a exploração dos familiares leva seus fãs a o destruírem. Desiludido, volta a fechar-se em si mesmo.
O grande ensinamento que essa história, lançada em 1969, traz para 2018 está em nos deixar em estado de alerta para o risco de não nos atentarmos às mudanças. Cada um, por mais limitado que que possa parecer às vezes, tem talentos insuspeitados. Fraquezas podem esconder fortalezas que lideranças conscientes podem trazer à tona.
Por outro lado, a vaidade e o excesso de confiança podem resultar em desastre. Apenas com a morte do ego, cada ser humano e a arte, de modo geral, podem atingir o seu esplendor. ‘Tommy’ revela uma assombrosa e até assustadora atualidade quando ouvida como uma espécie de grito de desespero pela construção de uma sociedade melhor.
Oscar D'Ambrosio é mestre em Artes Visuais e doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Este e outros textos estão publicados emwww.oscardambrosio.com.br
Após ler este texto, ouça e veja o filme ‘Tommy’, de Ken Russell de 1975: https://www.dailymotion.com/video/x176j7v