
A artista visual, poetisa e criança prodígio Akiane Kramarik é um bom motivo de reflexão sobre o papel da arte no mundo contemporâneo. Nascida nos EUA em 1994, é cantada em versos e prosa, como diziam os antigos, por dados biográficos como começar a desenhar aos quatro anos de idade, pintar aos seis e compor poesias desde os sete.
Graças a entrevistas concedias a diversos órgãos de imprensa, da CNN à TV Record, passando pelo The Oprah Winfrey Show, a artista tem fama mundial e é célebre especialmente pela obra que considera ser um retrato de Jesus. Deixando de lado a questão religiosa, é curioso verificar como essa obra, em termos artísticos, é de fato a mais significativa.
Vale uma reflexão sobre essa confusa e difícil relação entre vida e obra. Alguns lembram de Van Gogh muito mais por ter vendido apenas um quadro em vida e por ter cortado parte da orelha do que pelas suas cores e gestualidade marcantes. No caso de Akiane, o fato de ser autodidata e de alegar ter visões fala mais alto que o seu trabalho muitas vezes.
O ensinamento desse processo é que é necessário ver mais e melhor. Enquanto as narrativas superarem a visualidade, corre-se o risco de as histórias pessoais superarem as qualidades plásticas e técnicas. E isso não é bom para a arte. É a imagem que deve cativar e conquistar. Se a obra criada por Akiane Kromarik é ou não de Jesus talvez pouco importe. Mas se ela é bem pintada e toca as pessoas pelo seu impacto emocional e técnico deve sim entrar nas discussões sobre o sentido e o significado da arte.
Oscar D'Ambrosio, mestre em Artes Visuais, doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Este e outros textos estão disponíveis em www.oscardambrosio.com.br. Contato: odambros@uol.com.br