
Considerado por muitos um dos principais pintores impressionistas brasileiros, o paulistano Durval Pereira (1918 – 1984) tem, entre as sus temáticas, uma que desperta especial interesse: o de navios encalhados ou naufragados. Trata-se de um assinto rico em simbologia – e que o artista desenvolve de uma maneira geralmente primorosa e diferenciada.
Pereira oferta uma poética que demanda um olhar diferenciado, mesmo para paisagens ou cenas que parecem banais. Isso se dá muito pelo ritmo das pinceladas, pelo cuidado da composição e pelo uso das cores em escalas que colaboram para instaurar uma atmosfera de dramaticidade.
A nau parcialmente afundada, em destroços, ou imobilizada numa praia, aponta para um dos maiores riscos de qualquer ser humano, e principalmente de um artista: o da estagnação. Um combate perene do criador de qualidade reside nessa busca infinita por um movimento criativo que motive a perseguição de novas soluções plásticas e técnicas.
O fazer cuidadoso traz em si o potencial do risco. E, nesse aspecto, Durval Pereira talvez encontre, em suas obras que retratam naufrágios e encalhes de embarcações, um olhar próprio e peculiar. Cada imagem pode funcionar assim como uma declaração de amor à existência e à criação, no terno afã da arte de sobreviver apesar de tudo.
Oscar D'Ambrosio, mestre em Artes Visuais, doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Este e outros textos estão disponíveis em www.oscardambrosio.com.br. Contato: odambros@uol.com.br