
Se há uma discussão que está cima de qualquer tempo, é a do poder. Pessoas vivem e morrem por um cargo, uma posição ou simplesmente por estar acima de outras num organograma de qualquer tipo de organização. A peça ‘O Leão no Inverno’, de James Goldman (1927 – 1998), escrita em 1966, mostra exatamente isso.
Montada pela primeira vez no Brasil em São Paulo, SP, no Teatro Porto Seguro, com direção de Ulysses Cruz, com Regina Duarte e Leopoldo Pacheco como destaques do elenco, tem como eixo central o rei inglês Henrique II às voltas com a sucessão de seu trono entre os três filhos, a esposa que mantém prisioneira no castelo e a amante francesa.
A rainha prefere Ricardo, o mais velho na linha sucessória, com ambição ilimitada; e o rei, o mais jovem, João, um jovem irresponsável. Entre eles, o filho do meio, que busca obter as maiores vantagens possíveis para si mesmo, pendendo ora para um lado, ora para outro. Cada um deles revela, dessa maneira, uma visão do poder.
O rei idoso busca no novo amor a prova da própria potência sexual e da energia que lhe possibilite manter o controle da situação; a rainha encontra, na manipulação dos filhos, uma maneira de manter a esperança; e a amante representa o sangue novo para a virilidade do monarca decadente
Cada filho comporta a sua simbologia. Do mais velho para o mais novo, temos três situações: a mescla entre o espírito de desafio e de amor ao casal real em permanente conflito; a frustração de ser sempre aquele que está entre uma coisa e outra, sem vida própria; e o desejo de dominar a tudo e a todos, sem saber exatamente quando, como e por quê.
O balanço final é que, no conflito entre o mais velho e o mais novo, este último sempre ganha. A qual preço e em que condições é uma discussão que a peça traz à tona. Afinal, ser poderoso traz duas grandes questões: o bônus, representado por aquilo que o poder tem como elemento sedutor; e o ônus, pelos sacrifícios envolvidos e pelas pegadas deixadas em todo o caminho. Afinal, poder sem dor parece ser muito difícil. E fazer um bom uso dele torna-se mais desafiador ainda. Impossível? Melhor crer que não, para manter a esperança.
Oscar D’Ambrosio é mestre em Artes Visuais e doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Este e outros artigos estão disponíveis em www.oscardambrosio.com.br. Contato: odambros@uol.com.br