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diárias de bordo

Viviane Vallades

A necessidade visceral do existir 
Viviane Vallades
22/07/2018

A artista visual Viviane Vallades apresenta em seus trabalhos algumas das principais questões contemporâneas. A primeira delas é a própria constante presença nos vídeos e instalações que realiza. As imagens de autorretratos que se desfazem projetadas no gelo ou a perseguição da própria imagem em meio a espelhos e reflexos com uma arma na mão ilustram essa vertente.

Num período histórico em que as imagens valem mais do que milhões de palavras e onde a exibição de si mesmo é uma idolatria, as situações que a artista cria fazem perguntar de fato o que somos. Certamente a resposta cada vez mais pende para pensar que somos mais o que pensam que somos do que aquilo que de fato podemos ser.

Um segundo ponto é a relação com a palavra, seja em frase publicadas no facebook que dialogam com o leitor, em painéis de LED ou em vocábulos inscritos sobre caixas que Viviane coloca sobre a cabeça. Esta vertente dialoga com a primeira, pois as palavras que dissemos e os que os outros dizem de nós constroem aquilo que somos.

Sessa maneira, a imagem se soma à palavra num castelo kafkiano de possibilidades de decifrar a esfinge da existência. Entretanto, em meio a essa jornada pelas veredas sempre confusas, tortuosas e provocadoras da arte, há um fator definitivo que Viviane soma ao seu trabalho: suas pinturas e desenhos, em que seres humanos aparecem deformados e expressivos em sua agonia existencial.

Assim, ao lidar com a própria imagem e com a da própria espécie, Viviane Vallades oferta uma viagem sem volta pelas indagações centrais da arte contemporânea. Em primeiro lugar, pesquisa as raízes do fazer artístico, como a tradição do autorretrato; em segundo, o que ele é, como nos vídeos em que a criadora mostra seus trabalhos ao público de museus no celular ou quando interage com pessoas em espaços coletivo; e, em terceiro, para onde ele caminha, provavelmente por onde começou, ou seja, pela busca do ser humano pelas suas mais densas raízes, onde a necessidade visceral do existir predomina.

Oscar D’Ambrosio é mestre em Artes Visuais e doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Este e outros textos estão em www.oscardambrosio.com.br. Contato: odambros@uol.com.br