
Pi (Panorâmica Insana), peça de teatro encenada no Teatro Novo e, São Paulo, SP, sob direção de Bia Lessa, traz uma série de indagações que ultrapassam o palco. A principal é como a arte perdeu o seu papel de mobilizar as pessoas. O esforço físico e mental dos atores perante um texto rico e marcações de palco precisas parece não encontrar ressonância no público.
Por quê? Talvez porque uma das maiores dificuldades atuais das manifestações visuais e cênicas esteja exatamente em tirar cada pessoa da chamada zona de conforto. A peça é vista, mas não é discutida. Após cenas de inegável impacto na forma e no conteúdo, as pessoas parecem prontas para comer pizza e esquecer aquilo que viram.
As questões sociais, econômicas, políticas e filosóficas presentes na colagem de textos apresentadas constituem um mosaico pleno em portas de acesso ao mais recôndito de cada um de nós. Mas ada indivíduo precisa estar de alguma forma sensível aos apelos estabelecidos. O fato é que a clausura individual de cada um em seu próprio mundo impede de enxergar o que está ao redor.
Ver e ouvir a peça de verdade significa realizar um exercício de alteridade. Os quatro atores, literalmente mergulhados num cenário de peças de roupas usadas que são vestidas e desvestidas por Claudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo, trazem um painel da humanidade que indica miséria existencial, mas possibilidades de sobrevivência. Saber encontrá-las demanda disposição de escuta e coração receptivo. Nada simples...
Oscar D'Ambrosio, mestre em Artes Visuais, doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Este e outros textos estão disponíveis em www.oscardambrosio.com.br. Contato: odambros@uol.com.br