
Imagine um jovem ator em começo de carreira e uma vencedora do Oscar devastada por um câncer sentados frente a frente no palco de um teatro vazio declamando versos do clássico texto 'Romeu e Julieta', de Wiliiam Shakesperare. O diálogo entre esses dois seres apaixonados é o grande momento do filme ‘As Estrelas não morrem em Liverpool’.
Tão diferentes, em suas trajetórias e expectativas de vida, mas intensamente envolvidos por razões que a razão desconhece, esses personagens pontuam a delicada obra dirigida por Paul McGuigan e baseada no livro autobiográfico de Peter Turner, que conta, de maneira autobiográfica, o seu relacionamento real com a atriz Gloria Grahame.
Diversos temas são tratados, sempre com sensibilidade, desde as dificuldades da protagonista de admitir a doença até o desafio de ela lidar com a idade mais avançada. Ele, por sua vez, precisa escolher entre acompanhar a estrela no ocaso ou seguir com a própria existência.
As questões são tratadas com crueza e realismo. Ao mesmo tempo que a morte se aproxima dela, a vida oferece novas oportunidades ao jovem. Trata-se de uma caminhada complexa e dolorida entre o que resta de um passado glorioso e as distintas perspectivas de futuro.
E, se você chegou até este ponto deste artigo, não deixe de ler o trecho lido pelos autores no filme. Está no Ato I, Cena V, de ‘Romeu e Julieta’:
ROMEU - (a Julieta) - Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.
JULIETA - Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
ROMEU - Os santos e os devotos não têm boca?
JULIETA - Sim, peregrino, só para orações.
ROMEU - Deixai, então, ó santa! que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
JULIETA - Sem se mexer, o santo exalça o voto.
ROMEU - Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados. (Beija-a.)
JULIETA - Que passaram, assim, para meus lábios.
ROMEU - Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.
JULIETA - Beijais tal qual os sábios.
Oscar D'Ambrosio, mestre em Artes Visuais, doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Este e outros textos estão disponíveis em www.oscardambrosio.com.br. Contato: odambros@uol.com.br