
A arte tem mil caminhos e possibilidades de abordagem. Poucos são os filmes que tratam a questão sob um enfoque que discuta os elos entre a arte chamada erudita/acadêmica e a mais livre ou popular. O desafio é grande, pois a tradição, com todas as suas normas, encontra dificuldade de conversar com formas em que o improviso e a intuição prevalecem.
Realizado por Valéri Müller e por Angelin Peljocaj (coreógrafo), o filme ‘Polina’, baseado numa história em quadrinhos de Bastien Vivès, conta a história da personagem-título, que, na Moscou da década de 1990, consegue entrar na escola Bolshoi, mas enfrenta ali dificuldades com lesões, com as exigências técnicas e normativas e com a própria rigidez estética de princípios consagrados pelo tempo.
Em suas andanças por uma Europa em que sobreviver da arte é cada vez mais difícil, Polina passa a trabalhar em empregos longe de sua formação artística, mas consegue se reencontrar enquanto bailarina numa linguagem mais contemporânea e expressiva, em que a rigidez abre espaço para uma interpretação de sentimentos marcada pela liberdade.
Muito menos que pela história em si mesma, a narrativa encanta por trazer à tona a dificuldade imposta às jovens bailarinas e os desafios das grandes instituições de ensino de lidar com aquilo que pode ser diferente. Ao mesmo tempo, cabe a cada criador saber onde seu talento não se ajusta e onde pode se expandir. São equações complexas que o filme discute.
Oscar D'Ambrosio é mestre em Artes Visuais e doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Leia este e mais textos em www.oscardambrosio.com.br. Contato: odambros@uol.com.br