
Tina Lemos
Pensar o sagrado mobiliza as mais diversas lembranças e afetos. Constitui uma jornada em que existe uma trajetória pessoal que inclui pensar o próprio passado, repensando a ascendência, refletir sobre as atividades presentes e projetar, de uma maneira ou de outra, com mais ou menos otimismo, o que se deseja para o futuro.
É nessas três dimensões que Tina Lemos articula o seu retábulo. O rio Paraíba do Sul é o seu homenageado em termos de um local que traz à tona um repertório que remete às raízes indígenas, aos encontros de família e a devoção a Nossa Senhora Aparecida. Esses elementos não surgem de maneira separada, mas integrada, com poética harmonia.
O rio, a quem a família da artista chama de "avô", torna-se uma entidade, referência sagrada que a família visita. É de suas margens que sai o barro que ganha vida nas esculturas. É também na água que foi encontrada a imagem de Nossa Senhora. E é ali que estão os peixes que, além de serem alimentos, são símbolos da cristandade.
A água e os peixes, por estarem em todos os lugares, podem ser interpretados como representantes da própria arte. O rio, nesse aspecto, torna-se uma metáfora da própria vida desde o seu nascimento à foz. Nesse percurso, Tina Lemos apresenta a própria história que se confunde com a do rio, em suas idas, vindas e curvas pela rota da existência.
Oscar D'Ambrosio é Doutor em Educação, Arte e História da Cultura e Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, onde atua na Assessoria de Comunicação e Imprensa.