
Representante da África do Sul no Oscar de melhor Filme Estrangeiro de 2018, 'Os iniciados' é apresenta os diferentes níveis de embates de cultural do país. O mais evidente, colocado em primeiro plano na obra, é a questão da hetero e homossexualidade, mas ela se desdobra em muitas vertentes.
O eixo central é o ritual de inserção de adolescentes de origem Xhosa na vida adulta. Eles ficam nas montanhas, morando em cabanas, com pinturas corporais, cortando lenha e sofrendo a circuncisão. A ideia central é que estejam preparados para retornar para casa viris para formar as suas futuras famílias.
O relacionamento homoafetivo entre dois dos instrutores e a homossexualidade de um dos iniciados evidencia dezenas de outros conflitos. As tradições das montanhas e a modernidade da cidade; o andar descalço e o ter tênis azuis; manter-se na zona de conforto e arriscar-se na cidade grande; enfim, o diálogo entre uma antiga e uma nova África.
Mesmo a maneira de lidar com a homossexualidade é distinta. Um dos instrutores tem uma família e surge como macho dominante; o outro vive isolado de tudo, de todos e dele mesmo. O iniciado está um processo de descoberta, com consequências trágicas para todos. A obra discute tudo isso com delicadeza e contundência, alertando que um novo mundo só surge quando as diferenças são ampla e abertamente reconhecidas e discutidas.
Oscar D'Ambrosio, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura.