
O cinema é uma das melhores formas de mergulhar na interculturalidade em que vivemos. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pelo Senegal, 'Félicité' leva para a tela um drama que se passa em Kinshasa, na República Democrática do Congo. É uma oportunidade de conhecer modos de vida e de pensar tão longe e tão perto de nós.
A trama foca a personagem-título, uma cantora que vive sozinha. Seu filho, de 16 anos, sofre uma acidente de moto e terá que enfrentar uma cirurgia para não ter a perna amputada. O espírito maternal faz com Félicité faça de tudo. Como uma fera, busca ganhar dinheiro para proteger a cria.
Fracassa, mas sua jornada nos faz conhecer um país com seus policiais corruptos, a beleza de suas músicas, mães que aceitam vender filhos para pagar dívidas, mercados populares com maravilhas de cores e perigos de assaltos e execuções públicas e relações humanas tensas de traição, solidariedade e aceitação de diferenças.
Félicité, nesse contexto, cujo nome vem do fato de ter escapado da morte logo criança, recupera a força para cantar nessa caminhada, acompanhada de um parceiro instável, mulherengo, poeta, bêbado e sonhador. De onde tira a sua força? Daquele mesmo lugar que nos leva a criar e a fruir criações. De um poço sem fundo chamado felicidade.
Oscar D'Ambrosio, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura.