
Por que fazer arte? Por que penetrar num universo complexo em que muitas vezes a insatisfação pode ser maior que o prazer? Por que buscar novas representações de mundo quando para muitos aquilo que conhecem parece bastar e se lhes apresenta pronto, claro e pleno de repostas? Talvez porque a mãe da arte seja o inconformismo e o questionamento.
Brisas, de Betto Damasceno, é uma obra que pode apontar para essas perguntas. Sua força reside em grande parte no gesto. É justamente na maneira de levar uma ideia para papel, tela ou outro suporte que o criador visual traz a sua visão de mundo. E ela não precisa ser bonita ou afável, dois conceitos difíceis de definir.
A presença do vermelho e do preto estabelecem uma conversa, que ganha força pelos espaços do fundo branco. Salta assim aos olhos a intensidade do traço do artista. Seu movimento interior se concretiza nas ondulações. Seu movimento interno atinge olhos e sentidos de que vê num processo comunicativo ímpar.
É possível assim sentir as bridas e as brisas da criação. Por mais que se busque a essência do outro, há sempre algo de inatingível no que tona cada ser humano distinto em suas fraquezas e fortalezas, grandiosidade e sutilezas. A força da pintura que parece salvar é a mesma que pode levar ao fundo do poço da dor e do esquecimento. Estudar, vivenciar e projetar essas correlações de forças é o desafio de quem mergulha, como Betto Damasceno, na arte sem diletantismo, de modo autêntico e visceral.
Oscar D'Ambrosio, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura.