
Vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro de 2018, o filme chileno 'Uma mulher fantástica', dirigido por Sebastián Leilo, tem uma cena emblemática. A personagem Marina caminha contra o vento; e consegue se manter de pé inclinando o corpo. O momento resume a narrativa e mostra por que a vida vale a pena.
A protagonista, mulher trans, tem um relacionamento estável com um homem mais velho, que morre repentinamente. Isso faz marina ter que dialogar com um mundo que a rejeita. A polícia a vê como assassina; a família do companheiro, como usurpadora; e muitos não sabem sequer como tratá-la, sendo a definição mais curiosa a de "quimera".
Ver Marina como um ser mítico que combina elementos diferentes sintetiza bem o estranhamento da sociedade com o mundo trans. Trabalhar nos interstícios entre o masculino e o feminino é o grande desafio para muitos; e a personagem Marina traz para o filme a dor e a força de lidar com isso perante uma sociedade que a condena.
O não entendimento do que se desconhece leva à intolerância, mãe da violência. A posição do corpo de Marina contra o vento ilustra o mesmo vigor da abertura, com cenas das Cataratas do Iguaçu em sua imponente potência. Assim, a mulher fantástica do título torna-se uma quimera real, uma sedutora mescla de delicadeza e energia.
Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura.