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Desejo de transcendência

Desejo de transcendência
03/06/2026

Desejo de transcendência

 

A pintura que toma Andrômeda como título apresenta, além da predominância do azul, cor recorrente na obra da artista Eliane Mourão, um duplo movimento, que passa pela ancestralidade grega e pelo infinito cósmico. Não se trata apenas de olhar apenas para a narrativa clássica ou para o céu, mas perceber como ambos se fundem.

 

A tela torna-se assim espaço filosófico e existencial. A figura de Andrômeda, acorrentada à rocha como oferenda a um monstro marinho, não está evidenciada, mas é evocada como fragilidade e submissão diante de forças que escapam ao controle racional. 

 

Quando essa narrativa migra para o espaço sideral, as correntes de ferro transformam-se em gravidade e as estrelas assumem o papel de testemunhas mudas. O mito não morre, mas se expande. A donzela, pronta a ser sacrificada, ao ser salva por Perseu, deixa de ser um relato datado para se tornar uma constelação.

 

Enquanto arquitetura de pontos luminosos que se organiza no caos do universo, equivale a uma pintura. No entanto, deixa de ser um vácuo astronômico mensurável pelos cientistas e passa à condição de obra de arte, um espaço que pode ser lido como metáfora de solidão perante o universo, mas também como desejo de transcendência. 

 

Oscar D’Ambrosio

@oscardambrosioinsta

Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador.

 

Andrômeda

Eliane Mourão

AST

50 x 70 cm