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Memória e silêncio

Memória e silêncio
22/02/2026
A escolha pela artista da carcaça do caramujo traz uma dualidade. O material tanto apresenta conotações de proteção à vida que ali residiu como apresenta um vazio que remete à vacuidade da morte. Não se trata de escolher um desses caminhos, mas de lidar com a convivência deles, pois um não existe sem o outro.


 

A verticalidade ascensional da peça traz, exatamente pelos espaços que nela se apresentam, conceitos de vulnerabilidade e de efemeridade, pois cada elemento serviu, na vida considerada real, como uma armadura, proteção contra as violências do mundo.


 

No entanto, sem o seu ocupante, passa a ser um invólucro que, sem a sua função primordial da natureza, ganha uma dimensão estética, em que o formato de espiral pode ser vinculado a uma expansão da consciência ou a uma jornada da alma, que nasce em um ponto central e se expande infinitamente para o exterior.


 

As leituras podem se expandir na direção de ver a escultura como uma espécie de labirinto existencial, em que as reentrâncias apontam para ciclos de nascimento, morte e renascimento. As curvas, nessa perspectiva, criam elos entre memórias, presentes nas curvas e nos seus ecos, e silêncios, nas regiões anteriormente ocupadas.


 

Em síntese, a escultura traz convites a diversas camadas de introspecção. O recolhimento de quem a fez e de quem a observa cria vínculos. Afinal, a carcaça de um animal constitui um alerta de que a vida é passageira, mas a carcaça, transformada em obra pela artista, permanece.


 

A peça se torna um canal de comunicação da pessoa com ela mesma e com o mundo. Demandou calma e paciência no seu fazer. Olhar para ela induz a refletir sobre a ancestralidade de cada componente, que contém histórias que nunca serão recuperadas. Isso não precisa gerar desespero, mas traz consciência da finitude de cada um de nós e de tudo o que nos cerca.


Oscar D’Ambrosio


@oscardambrosioinsta


Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais


 

Sem título, 2015


Regiane Aparecida dos Santos Silva


Coautores: Patrícia Siqueira Lope Karniol e Isac Germano Karniol


Carcaça de caramujos, cola quente sobre madeira


30 x 17 x 15 cm