
De diversas maneiras, a arte é uma maneira de cada artista instituir a sua visão de mundo. Pode ser mais ou menos organizada, de acordo com cada caso, mas há sempre escolhas determinantes em busca de algum tipo de resultado. Daniel Freitas, por exemplo, tem na xilogravura uma expressão consistente.
É por meio dos traços, incisões e decisões na impressão, como número de cores, que harmoniza as suas visões e ordena seus cacos ao ver o mundo. É na criação visual que todo impossível pode se tornar possível, principalmente na interpretação do universo urbano.
Há então uma conversa interna, que lida com, no mínimo três variáveis, experiência no ato do fazer, desejo de expressão e capacidade criativa, instaurando formas de se relacionar com a existência. Isso não significa que as imagens dialoguem harmonicamente entre si, mas que o artista tem, como uma de suas principais características, a capacidade de propor dissonâncias.
Os seus trabalhos, portanto, provocam inquietações e estranhamentos. Partem do cotidiano da cidade, mas têm como eixo principal perspectivas pessoais que instauram um olhar visceral, muitas vezes melancólico, mas sempre lírico, pela capacidade de levar para a matriz e para o processo de impressão uma poética indagadora do visível em busca das essências do invisível.
Oscar D’Ambrosio
@oscardambrosioinsta
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador
Experimentos em amarelo, 2022
Daniel Freitas
Xilogravura da Série Cordel Urbano impressa em papel arroz
100 x 100 cm