
"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem". A frase do livro “Grande Sertão: Veredas” (1956), de João Guimaraes Rosa, pode ser lida como um convite para mergulhar nesta exposição, estacionando da correria da maratona cotidiana contemporânea para observar as obras em um ato poético do olhar.
Graça Crady apresenta pinturas e desenhos que enfocam os personagens do livro, enfatizando algumas de suas características. Dessa maneira, o público é estimulado a ver o dia a dia de uma outra maneira, transformando o pensar em um ato de coragem necessário para dialogar poeticamente com o mundo.
O livro tem a sua origem em maio de 1952, quando o escritor e diplomata Guimarães Rosa realizou uma viagem de 240 km durante dez dias pelo sertão mineiro. Na ocasião, acompanhou uma boiada do seu primo com o objetivo de conhecer melhor a geografia, os costumes e a linguagem da região onde nasceu, tornando suas experiências individuais em obras que tratam de questões universais.
Dormiu em cama de capim e comeu quase que exclusivamente carne seca com toucinho, arroz, feijão e farinha. Observava e perguntava sobre tudo e fazia anotações em uma caderneta que levava pendurada no pescoço. Dessa vivência, nasceu não só “Grande Sertão: Veredas”, entre outros textos.
As obras visuais da exposição penetram nesses caminhos e apresentam trabalhos que mergulham nas múltiplas ambiguidades roseanas, envolvendo o masculino e feminino que rondam Riobaldo e Diadorim em seus encontros e desencontros pela jornada proposta pelo autor. Como aponta o livro, “Nas veredas do sertão, na sombra de buritis, no fresco da água e no claro da lua, estou em contrição… tentando entender a alma do tempo, a raiva do mundo e o espaço miúdo que sobrou pro amor”.
Nas imagens de Graca Craidy, as figuras têm marcas de expressão e contornos reforçados, o que acentua a dramaticidade. O efeito das sombras é essencial para evocar a reflexão de que tudo e todos, seja no romance de Rosa ou na vida, guardam segredos. Há ainda um jogo dialético entre dramaticidade e tranquilidade, expresso em jogos cromáticos em que a personalidade dos personagens retratados ganha sutil e lírica complexidade. Assim, as imagens sugerem percepções dramáticas e agoniadas do mundo.
Assim como a flor de mandacaru resplandece no árido sertão, as fragilidades existenciais dos jagunços vêm à tona na prosa do escritor mineiro. O meio ambiente dialoga com as expressões físicas da natureza e com personagens como Diadorim, que se faz passar por homem no romance; e Riobaldo que realiza, como cada um nós, uma travessia existencial que nunca se completa.
Oscar D’Ambrosio
@oscardambrosioinsta
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador.