
Ana Maria Reis nos transporta para um universo que mistura música típica nordestina com tradições regionais e o ambiente árido. Bordada sobre aquarela, a obra de Ana Maria Reis, artista e pesquisadora em arte têxtil, lida com elementos visuais que se inter-relacionam. O primeiro deles é a imagem central de uma sanfona de oito baixos. O instrumento, tradicionalmente tocado com zabumba e triângulo, muito graças ao Rei do Baião, ganhou status de solista e se disseminou além do Nordeste, conquistando o Brasil e o mundo.
Uma manifestação dessa relevância do instrumento é que, para homenagear o Gonzagão, no mês de agosto, o do seu falecimento (2/8), ocorre, anualmente, a Procissão das Sanfonas. Promovida pela Colônia Gonzaguiana do Piauí, reúne centenas de sanfoneiros em encantador cortejo musical pelas ruas de Teresina.
E temos ainda o ambiente retratado, a caatinga, denominação que provém do tupi-guarani e significa “floresta branca”, porque as folhas da sua vegetação caem no período da seca. Exclusivamente brasileiro, compreende cerca de 70% da Região Nordeste, englobando os estados nordestinos da Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão, Alagoas, Pernambuco, Sergipe e Bahia, e 11% do território nacional.
Infelizmente a caatinga vem sendo um dos biomas mais devastados do Brasil pelo desmatamento para a ampliação de atividades agropecuárias. Sua preservação é importante não só para a manutenção das características climáticas locais e globais, que impactam a rica biodiversidade local, mas por ser o berço de diversas nascentes que abastecem o sertão nordestino.
A obra “Sanfona”, de Ana Maria Reis, traz, portanto, a oportunidade de pensar sobre o instrumento musical, sobre uma festa popular a ele ligada e sobre a preservação do meio ambiente. Isso mostra o papel da arte de poder levantar questões essenciais que podem nos tornar cidadãos e pessoas melhores.
Oscar D’Ambrosio