
Uma das palavras mais valorizadas nos últimos anos no mundo das artes, é “opacidade”, muito relacionada aos escritos de Édouard Glissant, que vê na multiplicidade e diálogo entre as culturas uma forma de consolidação de dizeres regionais. A pintura “Retrato do Nordeste”, de Lucas de Pontes, traz essa questão.
Ela fala da cultura daquela região, mas, como bem observou o icônico escritor paraibano Ariano Suassuna, há entre a cultura nacional e a europeia áreas de muito contato.
A roupa, as vestimentas, os calçados e o cinto presentes nas figuras, por exemplo, provém do couro de boi, animal que aparece à esquerda do quadro; e a musicalidade representada, as tonalidades utilizadas e as imagens criadas apontam que, além da base luso-brasileira, com grandes influências africanas, como ocorre na costa, que vai de Pernambuco à Bahia, e no Maranhão; há, em especial no sertão semiárido, uma conversa com raízes ameríndias.
É desse caldo que surge o retrato do Nordeste que conhecemos: autêntico, mas pleno de influências a gerar fascínio.
Oscar D’Ambrosio