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Repensando o Nordeste

Repensando o Nordeste
04/02/2026

Gerson Lima repensa o Nordeste com diversos elementos contemporâneos. A obra “Resiliência” traz aquilo que a arte tem de melhor, ou seja, a possibilidade de trabalhar com diversos elementos para obter os mais variados efeitos possíveis, que vão desde os estéticos aos simbólicos. Eles se articulam por meio da construção de uma poética em que o belo se alia ao discurso questionador daquilo que conhecemos como realidade.

 

O trabalho que ilustra este post tem como suporte uma tela de 70 x 100 cm. Ao fundo, o artista escreve de próprio punho, com caneta permanente, as letras das músicas “Asa Branca” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) e “Carcará” (João do Vale e José Cândido), ícones do significado do ser nordestino em sua luta contra o ambiente seco e hostil.

 

Há ainda a mescla de técnicas, como flores, pássaros e cabeças de pessoas, feitas com cerâmica; e o tronco da árvore, com papietagem, base de gesso e forro com fibra de bananeira. O conjunto faz uma síntese simbólica da vida do povo do Nordeste. 

 

Nesse sentido, a árvore, com suas raízes que penetram nas profundezas da terra e galhos que apontam para o céu, é a grande metáfora da existência, abalada pela força da seca. Assim os frutos que nascem são a esperança da alimentação necessária para sobreviver.

 

As cabeças de nordestinos indicam que, apesar das dificuldades, muitos permanecem ligados às suas raízes, seja no cotidiano do trabalho agrícola ou no sentido figurado, pois, mesmo que que migrem para outras regiões, levam o sertão e as suas tradições dentro deles. Embora o círculo preto indique o luto das pessoas enterradas, seja física ou psicologicamente, os beija-flores, com a sua beleza e fragilidade, indicam a possibilidade de dias melhores.

 

O título alude à capacidade de cada pessoa lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos e/ou resistir à pressão de situações adversas. Ao mesclar palavras, imagens e materiais, Gerson Lima, neste trabalho, consegue nos fazer refletir sobre o que é o ser humano, de modo geral, e aquilo que caracteriza homens e mulheres nordestinas, em particular.

 

Oscar D’Ambrosio