
Fui convidado para conhecer as Crônicas de Damar. Logo percebi que elas criam uma outra realidade, mas se alimentam desta que conhecemos. A vida considerada real não cabe naquele espaço, mas há muito dela ali, como as árvores e as matas, baseadas no planeta Terra que conhecemos.
Há ainda uma multiplicidade de personagens. O primeiro, em ordem de importância, é o Charles Mogadom, mas há muitos outros, como o Miguel e a Maria Sutil, que são irmãos, e me chamaram a atenção pela sua dualidade, assim como o Peixe Rabone, que, como o senhor da individualidade, busca fortalecer a de cada habitante.
As bolhas que surgem nas imagens evocam as que caem no chão e destroem as civilizações que abrigavam. Inclusive há muitas delas vagando nessa condição efêmera e, quando caem em Damar, animais gigantes pisam nelas sem perceber o que estão destruindo. Fazem isso, porém, sem querer, não por acreditar, como fazem os humanos, que estão sendo invadidos por outros povos ou algo assim.
As crônicas aglutinam muitas coisas. Miguel Sutil, por exemplo, não sabe se está aparecendo ou desaparecendo e qual é o sentido desses dois movimentos, casos eles existam, enquanto o professor Limão Verde observa que o fogo da energia de Damar está sumindo e Maria Sutil, que é transparente e está no circo, como acrobata, dança.
O circo, aliás, é muito conectado com muitos aspectos das crônicas. Quando ele passa pela cidade, não se sabe se é leva as crianças ou se são elas que vão com ele. Como em amar não há crime ou preconceito em relação a isso, Maria foi para longe quando ele esteve lá e habita agora em uma pequeníssima vila, onde aprendeu a cozinhar, vivendo disso e também atuando no circo.
Em uma das crônicas, há outro elemento circense muito tradicional, um palhaço, uma pessoa que, de alguma maneira, como todos nós, vive de máscara. Sua imagem dialoga com selos e carimbos, em vários formatos e cores; textos imaginários, sem sentido algum, que funcionam como exercícios de caligrafia; e imagens criadas com aquarela e nanquim. Tudo isso gera infinitas composições, situações e personagens.
Oscar D'Ambrosio