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Crônicas de Damar 3

Crônicas de Damar 3
30/01/2026

Decidi escrever sobre as crônicas de Damar sem olhar para elas, já que estão, em parte, fundamentadas em uma tese sobre a escrita que considera as palavras 

mágicas em muitos aspectos. 

Nessa perspectiva, cada letra apresenta uma estrutura que, por sua vez, tem uma história. Portanto, a letra não é para ser lida, mas para ser admirada pelo seu valor gráfico, com seus equilíbrios e danças internas. 

 

Em geral, pensa-se que a letra é para falar, como se fosse uma língua, mas as Crônicas de Damar mostram que ela funciona como uma herança gráfica muito importante relacionada com o tempo em que foi feita, pois continua independentemente da tecnologia, como o computador, ou da forma como a escritura dela se manifesta. Prossegue como sensação plástica e recurso visual. 

 

Está inclusive relacionada com a contabilidade, já que o verbo “contar” pode ser usado de várias maneiras: “conto com a sua confiança”; “conto um conto”; e “conto os números”, por exemplo, são três usos da mesma palavra. 

 

As Crônicas de Damar são, nesse sentido, uma contabilidade literária de ideias, que constitui justamente uma forma de contar histórias. 

 

Essa tradição provém, por exemplo, dos judeus, que amam as letras e são chamados pelo termo islâmico "Ahl al-Kitāb" ("Povo do Livro"), devido à sua forte conexão com a Torá, uma das suas escrituras sagradas, e aos seus estudos contínuos. 

 

Nessa tradição, a letra é uma geometria que utiliza as três figuras básicas: o triângulo, o quadrado e o círculo, nas mais diferentes caligrafias, com desenhos apaixonantes que as tornam objetos gráficos e visuais, seja qual for o seu sentido, seja no campo dos sonhos individuais, silenciosos, guardados apenas pra si mesmo; ou coletivos, contados para os outros. 

 

As Crônicas de Damar, portanto, assim como as letras, que sugerem sons e musicalidades em seu desenho, são sonhos de uma vida inteira, não uma história a ser contada. Elas podem ter letras, até para parecerem cartas reais, mas não tem um sentido lógico ou racional, sendo uma escrita irreal, plástica, visual, que não é legitimada pela racionalidade, mas vivenciada no campo do imaginário. 

 

Oscar D'Ambrosio