textos

diárias de bordo

Celebrando a reciclagem

Os 10 anos da trajetória visual de Livia Passos
Celebrando a reciclagem
08/01/2026

Celebrando a reciclagemOs 10 anos da trajetória visual de Livia PassosOs baobás são símbolos da conexão entre o mundo natural conhecido e o sobrenatural desconhecido. Uma expressão disso é a Árvore do Esquecimento, monumento erigido na costa do Benin, onde se diz que existia uma árvore ao redor da qual os escravizados eram obrigados a dar voltas antes de embarcar para as Américas.Era uma maneira de deixar ali e apagar seus nomes, o de suas famílias e da sua terra em si mesmos e naqueles que ficavam na África, perdendo, assim, seus laços. A imagem que celebra os dez anos da trajetória visual de Livia Passos não só resgata essa história como aponta como não esquecer o passado o torna presença e memória futura.Em sua carreira, com exposições individuas e coletivas no Brasil e no exterior, a artista torna-se um simbólico baobá de si e da sua ancestralidade como símbolo de resistência pela reciclagem de materiais, principalmente hospitalares, e de sua cultura. Assim de suas próprias raízes, surge a força que faz os galhos se elevarem.Cada pessoa que entra em contato com seu trabalho cresce como um baobá, carregando, com beleza e imponência, lembranças para as futuras gerações. Técnica de enfermagem de formação, Lívia Passos traz assim ao primeiro plano todos aqueles que são esquecidos nas mais variadas dimensões da vida, tanto pública como privada.O ciclo de nascer/viver/morrer/renascer da árvore ilustra como cada indivíduo tem o seu lugar reservado na própria história e na da humanidade, seja pelas memórias afetivas, pela busca do aperfeiçoamento técnico contínuo naquilo que faz e pela criatividade no lidar com o próprio corpo, com a sociedade, com a Mãe Natureza e com o Universo.Retomando raízes, criando arte e multiplicando no futuro ideias de retomada da ancestralidade e de construção de um futuro em que, de certo modo, todos sejam um sem perder a sua individualidade, Livia Passos nos lembra, há dez anos, que a arte, a todo instante, é um interpretar do que fomos, somos e podemos vir a ser.Oscar D’Ambrosio