
A arte chamada naïf tem características muito peculiares. A principal é que as pessoas costumam observar muito mais a sua conceituação (realização por artistas autodidatas sem formação acadêmica ou universitária) e a biografia dos criadores (geralmente originários das camadas menos favorecidas da população brasileira).
Isso faz com que simplesmente as obras de arte sejam muitas vezes praticamente ignoradas. Curiosidades do gênero ou dos artistas envolvidos ganham o primeiro plano. Isso pode prejudicar a leitura visual de obras como a de Manoel Santos. O fato de ter desenvolvido sua arte com referências próprias e de trabalhar como gari em Goiânia não é o principal.
O que ele apresenta é uma interpretação do mundo repleta de observação do cotidiano mesclada a uma imaginação repleta de humor e crítica social. Não se trata de engajamento político, mas de colocar nas telas uma visão popular e direta de uma realidade que pode parecer confusa, mas está marcada por muitos sentidos e construções verbais e visuais.
Manoel Santos oferta cores e sorrisos. Suas figuras, que costumam colocar animais com características humanas (antropomorfismo), trazem o lirismo de quem tem a capacidade de derrubar limites, propiciando a quem olha novas visões. O conhecido e o desconhecido se mesclam para a criação de fantasias que nos obrigam a rever o dia-a-dia. E isso não é pouco.
Oscar D'Ambrosio é Doutor em Educação, Arte e História da Cultura e Mestre em Artes Visuais.