
A escultura em cerâmica "Innana – A 7ª Porta, queimada em alta temperatura, de Lili Vilela, possibilita pensar e repensar o feminino. A imagem evoca uma deusa da mitologia suméria, irmã do deus-sol Utu e casada com o pastor Dumuzid. Relacionada ao amor, ao erotismo e à fecundidade, participa de diversas narrativas mitológicas da Mesopotâmia.
A principal é a descida aos infernos, narrada de diversas formas. Em síntese, ela invade o mundo da morte da sua irmã Ereshkigal e, nesse processo, passa por sete portais. Em cada um, perde algum adereço, como joias e vestes, chegando nua à presença dela, que promove um julgamento que a condena à morte.
Posteriormente, com a ajuda do Deus das Águas, Enki, é perdoada e pode voltar periodicamente para a terra, no período justamente da fertilidade, ou seja, a primavera. Dentro desse mito fundador das estações do ano, a escultura, alongada, remete à relação vertical entre o submundo da morte e o mundo da vida.
O drapejamento do vestido é associado à água; e o cabelo solto comprido, à sensualidade. A imagem estabelece assim um diálogo com figuras como a Ishtar de acadianos, babilônios e assírios; a Afrodite grega; e a Vênus romana. Todas se unem na força do feminino e nos seus elos com o amor, o prazer e a continuidade da existência, superando, em sues mitos, portas e portais – algo que a mulher contemporânea continua a fazer em novos parâmetros.
Oscar D’Ambrosio