
Texto de Elaine Perez
Imagem de Tito Ferrara
Assustador, de Elaine Perez Assustador o delírio de quem aplaude os propagadores da dor. Nocivo o não interesse pelos mortos, mas a morte estimulada pela ação irresponsável dos que estão vivos. Sinistro o desprezo ser valorizado, seguido, disseminado. Nefasto o ato de curtir pelo toque, que pinga de sangue a afirmativa que trucida. Danoso é o comportamento humano, que no delírio do poder aumenta o número de covas no estoque dos que deixaram de viver. Estarrecedor é testemunhar a miséria da alma humana ser legitimada pela indiferença de ações tão desumanas. Entorpecedor é se deparar constantemente com a droga de um discurso que estimula uma falsa cura suicida, espalhada por palavras genocidas. Assustador é a dor. Nocivo é exterminar o vivo. Sinistro é deturpar registros. Nefasto é o sangue que se espalha pelo rastro. Danoso é o que faz o ato enganoso. Estarrecedor, sepulcros caiados seguirem espalhando o pavor. Entorpecedor, defender o impostor. Que meus olhos ouçam meu coração e toquem a música da vida que deseja vida. O ancião é nosso livro, de Tito Ferrara
O mural (3,75 x 16 m), de Tito Ferrara, localizado na altura do número 1817 da Rua da Consolação, em São Paulo, SP, inclui a frase “O ancião é o nosso livro”, pronunciada pelo jovem Kanynary Apurinã em uma live pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em julho de 2020. O trabalho visual ressalta, pela imagem e pelas palavras, como os idosos, aqueles que mais sofreram no começo da pandemia, ao partir, levam consigo parte da cultura dos povos indígenas, pois eram os grandes responsáveis pelo ensino e transmissão das tradições e conhecimentos tradicionais às novas gerações. Essa função dos anciãos de ligar passado, presente e futuro, também ocorre, é claro, em outros segmentos populacionais, sendo mais uma das facetas da morte de mais de 500 mil brasileiros causada pelo novo coronavírus.
Oscar D’Ambrosio