
Fragmento do poema “Hotel Amadeu” do livro “O Livro da Adolescência”
“No Hotel Amadeu
entre os escorpiões da carne
e os ferrolhos da moral eu pressentia
que era preciso assaltar os céus
e que o conhecimento e o saber
não mais podiam ser submetidos e subordinados
O Moderno havia sido modelado
com o sacrifício dos mais pobres
e não havia trazido
a liberdade prometida
mas a angústia, a fome
e a manutenção da desigualdade"
Palimpsesto Cinabre
O palimpsesto de Euro S. R. permite estabelecer elos simbólicos com o texto. Existem, na área central, dois triângulos avermelhados, um com a ponta para cima e outro com ela para baixo. O ato de “assaltar os céus” passa por essa dualidade, pois “os escorpiões da carne” e “os ferrolhos da moral” prendem o ser humano ao telúrico, ao universo em que a serpente tentou Adão e Eva – e eles, cedendo aos prazeres, tiveram como punição a sua expulsão do Paraíso. No atual mundo de “manutenção da desigualdade”, a imagem do artista se cristaliza pelas partes que a compões. Uma linha horizontal imperfeita separa áreas mais retas, na parte superior; daquelas mais pontiagudas, na inferior; ou seja, a estabilidade divina se separa da instabilidade humana. Perante “a angústia, a fome” e outras formas de violência, a arte é uma resposta, seja, de acordo com observador, ascensional ou não.
Oscar D’Ambrosio