textos

diárias de bordo

Poema e Obra visual de Euro S. R. (3)

Poema e Obra visual de Euro S. R. (3)
15/06/2021

Fragmento do poema “Hotel Amadeu” do livro “O Livro da Adolescência”

 

"... o novo me chegava 

sem ser esperado 

e o amor se deixava achar 

como uma pepita na bateia 

 

A água desgastava tudo e o fogo erguia novas formas 

tudo era composição e desagregação 

combinação e separação 

e o espírito e as vísceras 

conviviam na inocência do desejo "

 

Palimpsesto Mercúrio

O trecho do poema fala em “composição e desagregação” e “combinação e separação”, substantivos muito presentes na maneira como Euro S. R. trabalha as suas obras visuais. O conceito de palimpsesto, pergaminho ou papiro cujo texto, entre os séculos VII e XII, era eliminado, pela lavagem ou raspagem, para permitir a reutilização, encontra eco na maneira como o artista lida com o suporte. Na Idade Média, o “apagamento” era utilizado devido ao preço de uma base original, enquanto Euro S. R. se vale desses procedimentos para resgatar o que está escondido nos materiais que utiliza, em um processo de “escavação visual”. Ressalte-se que o mercúrio, metal prateado, tem esse nome, devido à sua fluidez, relacionada com o deus grego homônimo, mensageiro dos deuses que liga o divino ao humano. Por analogia, por ser o planeta que mais rápido completa uma volta em torno do sol, célebre também pelas suas milhares de crateras e pela cor marrom acinzentado, o planeta recebeu o mesmo nome. Palavras e obra visual compartilham esses mesmos diálogos entre o criar e o sentir, entre “o espírito e as vísceras”.

 

Oscar D’Ambrosio