Sidney Lacerda: a liberdade do gesto
“Sou a filha da Terra e da Água,/ E a criança mimada do Céu:/ Passo pelos poros do oceano e das praias;/ Eu mudo, mas não posso morrer”. Esses versos do poema A nuvem do poeta inglês Shelley (1792-1822) estão na gênese do processo criativo de Sidney Lacerda.
Ele confessa que a sua porta de entrada para o mundo das artes plásticas ocorreu em Bandeiras, Minas Gerais, cidade em que nasceu, justamente quando olhava as nuvens passando no céu e construindo as mais variadas imagens. A mesma liberdade que encontrou na natureza aplica em seus melhores trabalhos. Afasta-se do figurativo para estabelecer um universo onde a construção das formas é o ponto alto.
O gesto é que ganha as telas. O observador das obras do artista pode até buscar um referencial para se apoiar, mas encontrará a liberdade do movimento do pincel em busca da representação certeira. A preocupação não é errar ou acertar, mas fazer plenamente. Quando utiliza o branco e preto em suas criações, a presença e a ausência de cor conquista o espaço pelo jogo de atrações e distâncias e de espaços cheios e vazios.
As mesmas nuvens da infância ressurgem recriadas com aprimoramento técnico e com responsabilidade. A maturidade está na construção visual e na pureza e alegria de criar sentimentos próximos aos que o artista vivenciava quando se deitava na grama para ver a infinita e insuperável riqueza plástica criada pela natureza no céu.
Em cada nova tela, que comporta a possibilidade da mudança, Sidney Lacerda oferece uma nova visão de mundo. Inquieto no desenvolvimento de novas técnicas, busca sempre o aperfeiçoamento, assim como a solução mais adequada para as suas interrogações, transformadas em respostas plásticas prontas a surpreender pela liberdade do gesto e do experimento contínuo.