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A craca do estaleiro de todos nós

A arte é, desde o início dos tempos conhecidos, uma manifestação do sentimento do ser humano de estar no mundo. Cada expressão visual revela, portanto, em sua opção estética, uma forma de sentir e de pensar a realidade. Nessa óptica, uma fotografia, por exemplo, é muito mais que uma imagem. Trata-se de uma declaração de princípios e de sentimentos.
            Nesse sentido, a artista plástica Izabel Romera debruça-se, nesta pesquisa visual, sobre um estaleiro. O local, utilizado para construir, guardar e reparar embarcações, comporta a simbologia do nascimento, pois é ali que surge uma vida que irá singrar a água, com os mais variados fins, seja militar, transporte, segurança, lazer ou pesca.
            As fotos reunidas constituem um exercício do olhar. Círculos, nós, metais envelhecidos, água do mar mesclada com a da chuva, correntes, hélices, enfim, o universo que compõe o fazer de um barco e suas partes, mais ou menos definidas de acordo com o caso, vem aos olhos numa perspectiva própria, diferenciada.
            Um dos elementos repletos de significado simbólico selecionados pelo olhar de Izabel é a craca, nome comum que se dá aos crustáceos marinhos de vários gêneros que se fixam em substratos rochosos, outros animais, como baleias, e fundos de barcos, causando, nestes casos, sérios estragos se não houver adequada e periódica limpeza.
            Essa sujeira ameaçadora, mas, ao mesmo tempo, de grande senso estético, pelas formas que assume e pelas maneiras como vai corroendo os barcos, numa metáfora da própria vida, e de como a beleza reside mesmo onde ela parece não existir, pois ela não é em si mesma, mas depende essencialmente do olhar de quem a vê.
            Certas elementos visuais, como círculos, são explorados na sua potencialidade visual, ocorrendo o mesmo com representações altamente simbólicas, como a ferrugem, que transmite conceitos de envelhecimento próprios do universo das embarcações e da nossa vida cotidiana, corroída pela passagem do tempo.
            Os nós e as correntes constroem um ambiente à parte. São mostrados geralmente em visões bem aproximados, como cavalos de uma Medusa a desafiar o nosso intelecto e propor novas maneiras de visualizar o cotidiano. A complexidade e a textura de seus entornos remete às dificuldades que temos de aceitar o mundo, os outros e a nós mesmos.
            Todo esse conjunto é flagrado num único dia chuvoso. E talvez seja justamente essa presença, implícita e explícita da água, de acordo com cada imagem, que traz um lirismo melancólico aos resultados visuais oferecidos pela artista. Instaura-se uma atmosfera de decadência, que assusta e fascina simultaneamente, gerando perguntas sobre o próprio tempo, sua passagem e as transformações que ele inevitavelmente gera.
            Izabel Romera, com suas fotografias de cracas e outros elementos em um estaleiro num dia chuvoso, estimula o pensamento visual e o existencial. Os crustáceos repousados nos cascos e as composições de elementos tanto sobre o solo como com o céu ao fundo, ilustram um pensamento que se preocupa com o silêncio da vida e o preenche com a riqueza poética de sua percepção visual.
Assim, o local em que o barco nasce, o estaleiro, aproxima-se daquele que o mata, a craca, numa metáfora que alude ao célebre círculo urobórico grego, no qual a cobra morde o próprio rabo para mostrar que o caminhar da vida é infinito e que o começo e o fim de tudo estão bem mais próximos do que se imagina.