
A capacidade de dar movimento a uma obra estática é o grande mérito de Antonio Silimo, de Moçambique, em “Táxi Ciclista”, obra realizada com tinta acrílica sobre papelão. O criador consegue estabelecer uma atmosfera que justamente ressalta esse aspecto desafiador de dar uma dinâmica a uma obra bidimensional em um suporte fixo.
A imagem do táxi ciclista, que leva na garupa um rapaz que porta uma cadeira sobre a qual temos um pacote escrito “Frágil”, tem uma sutil ambiguidade. Por um lado, transmite a “fragilidade” de uma malha urbana que permite esse tipo de transporte. Por outro, oferece a oportunidade de desenvolver uma rica linguagem visual que apresente essa “fragilidade”.
O uso da cor e das manchas funciona muito bem no sentido de proporcionar ao trabalho aquilo que ele tem de melhor, justamente a sua expressividade. O gesto da pintura se dá na maneira como a ação é retratada, como um flagrante no qual é possível observar atentamente as expressões visuais do que acontece.
A presença da máscara situa a cena no atual momento, mas a intensidade visual ultrapassa um instante pontual. Seu maior mérito é gerar um impacto duradouro a partir de uma atividade cotidiana. Isso se deve graças à habilidade do artista de lidar com as cores e com a construção do espaço, focando o seu objeto de atenção dento de um todo que imaginamos caótico.
Esta obra faz parte da Coletânea do Projeto Dias de Reclusão.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br