
Se Edna Alves traz Luiz Gonzaga, em uma posição inusitada, no céu; Fernanda Cordeiro coloca o Rei do Baião cantando a música “Juazeiro”, um de seus clássicos.
A obra de Fernanda Cordeiro, uma xilogravura sobre papel, apresenta a força nordestina que Luiz Gonzaga colocava em suas composições e interpretações. A região traz para a artista memórias íntimas.
Os pais dela nasceram no Estado de Pernambuco e o seu pai, Seu Cordeiro, é do sertão de Afogados da Ingazeira, onde veio ao mundo em 1938. “Praticamente viveu todas as toadas que Luiz cantou... a dor, a fome, a seca e o ser migrante... mudou do sertão para ser Candango em Brasília, ajudou a construir o Congresso Nacional em 1957... ficou em Brasília e fez família”, conta Fernanda.
É esse sangue nordestino que corre nela que vem à tona nesta obra, numa linguagem visual própria da região, de certa forma ilustrando a música que ela mais gosta de Gonzagão, que é “Juazeiro”.
A obra, uma das mais conhecidas cantadas por Luiz Gonzaga, trata da história de um casal cujos nomes foram talhados no tronco da árvore desse nome, também chamada de joá, laranjeira-de-vaqueiro, juá-fruta, juá e juá-espinho, uma árvore típica do Semiárido brasileiro.
Curiosamente, os frutos do juazeiro, do tamanho de uma cereja, são usados para fazer geleias e utilizados na alimentação do gado na época seca. Analogamente, neste período de pandemia, a arte vem alimentando Fernanda Cordeiro a construir a sua obra visual com maior consciência do seu talento e do que vem fazendo – e todo esse processo ocorre com o mesmo amor que homenageia as raízes que o seu pai tão bem representa.
Oscar D’Ambrosio