


Toda arte é política no sentido de manifestar uma visão de mundo e uma ideia sobre ele, mas certos artistas dão aos seus trabalhos uma dimensão mais explícita. Para isso se valem de diversos recursos. Ricardo Montalvão (@ricardomontalvao e/ou @artecommontalvao), por exemplo, é responsável pelo Projeto Guaraná Antártica 2020.
A proposta é uma releitura de “Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Coca Cola”, de Cildo Meireles. Há 50 anos, ele inseriu, em vasilhames de refrigerantes ainda em circulação, inscrições de mensagens políticas censuradas pela ditadura, a própria descrição do projeto e, em uma pequena ilustração, ensinava como transformar a garrafa em um coquetel molotov.
Montalvão deu início ao seu projeto em 2017, como protesto ao ex-presidente Michel Temer e, agora, em 2020, no lugar de frases contra o neoliberalismo e o imperialismo de Cildo, o Projeto Guaraná protesta contra o atual presidente. Coloca máscara, que o mandatário reluta em usar, na garrafa do refrigerante nacional com dizeres diretos de mensagem política.
A obra, seguramente polêmica, dialoga também com o “Projeto Cédula” e o “Totem-monumento ao Preso Político”, ambos também de 1970, de Cildo Meireles. No primeiro, carimbava frases consideradas subversivas nas cédulas de cruzeiro e de dólar e as devolvia ao mercado.
No segundo, na exposição “Do Corpo à Terra”, organizada pelo curador Frederico Morais, encharcou dez galinhas com gasolina e as incendiou vivas diante da plateia. O happening, realizado em evento que integrava as comemorações oficiais da Semana da Inconfidência Mineira, tinha múltiplas conotações.
O artista criticava a maneira como Tiradentes fora heroicizado pela ditadura militar, inclusive com a ares de Jesus Cristo, enquanto as galinhas, entendidas como o povo brasileiro, vítima de assassinatos e torturas, eram sacrificadas como muitos foram assassinados e torturados pela ditadura.
Fonte de referência de Montalvão, Cildo é um marco nacional no entendimento da criação estética como forma de atacar o sistema da política e da própria arte, questionando a sua produção, recepção, circulação e institucionalização. A ideia não é que o público contemple, mas que se sinta desconfortável e, perante esse mal-estar, agisse.
Se as garrafas ou cédulas eram de difícil apreensão pela proposta de se manterem vivas, do no mercado, no caso do happening, nem a obra concreta permanecia para ser apreendida pela censura. Só ficaram registros fotográficos de uma ação que, como a de Montalvão, muitos nem vão considerar como arte, mas que mobilizam contra abusos de poder.
Oscar D’Ambrosio