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Semana da Cultura Nordestina (35)

Semana da Cultura Nordestina (35)
06/08/2020

Se Tito Lobo oferece em seu trabalho a riqueza visual de uma região, Alex Freire nos leva a refletir sobre a arte e a importância da xilogravura nordestina.

Provavelmente de origem chinesa, onde já era praticada no século VI, a xilogravura consiste em entalhar na madeira, com ajuda de um instrumento cortante, aquilo que se deseja imprimir. Surge assim a matriz. Com um rolo de borracha embebida em tinta, toca-se só as partes elevadas do entalhe e de obtém a impressão.  

A técnica se disseminou pela Europa na idade Média, sendo trazida ao Brasil pelos portugueses. Por aqui, se associou à literatura de cordel. Prova disso é que quase todos os xilógrafos populares brasileiros, principalmente os do Nordeste do país, provêm do cordel, como é o caso de J. Borges, que mora em Bezerros, PE, a 30 km de Bonito, a cidade de Alex Freire.

Freire, que considera Borges como um de seus mestres, realiza a xilogravura intitulada “Carcaça”, impressa sobre um papel tamanho A3. Evidencia-se aí o diálogo entre uma ave de rapina, como o carcará, celebrizado pela música com esse nome, de João do Vale, de 1965, interpretada por Maria Bethânia, e o crânio de um bovino.

Onívoro, o carcará se alimenta de animais vivos ou mortos. Comedora de carniça, voa e pousa junto a urubus. Com uma espécie de solidéu preto sobre a cabeça e seu bico adunco e alto, que lembra a lâmina de um cutelo, é muito associada, portanto, à ideia de morte – e não surpreende que, na imagem de Alex Freire seja vista junto a uma imagem que remete à morte.

A imagem de Alex Freire apresenta, portanto, um diálogo entre a vida da ave e a morte do gado. Constitui uma metáfora daquilo que somos e do que viremos a ser. A diferença parece estar nas maneiras como encaramos essa jornada e como lidamos com ela ao longo do nosso período terreno, seja no agreste sertão nordestino ou em quaisquer outras localidades.

Oscar D’Ambrosio