
Se Ruy Relbquy foca sua atenção na figura do compositor e sanfoneiro Luiz Gonzaga, Celia Gondim nos leva a mergulhar nas tradições do Caboclo de Lança e do Maracatu.
Nascida em Recife, PE, mas radicada em João Pessoa, PB, Celia Gondim representa, em seu trabalho com tinta acrílica sobre tela, o Caboclo de Lança, um dos símbolos do carnaval de Pernambuco, que integra o Maracatu Rural ou Maracatu de Baque Solto.
Figura folclórica do Estado, o Caboclo de Lança, também chamado de lanceiro africano, caboclo de guiada ou guerreiro de Ogum, é inseparável do Maracatu, que constitui tanto um ritmo musical, como uma dança e ritual de sincretismo religioso com dois tipos conforme o baque (a batida).
O Maracatu Nação (Baque Virado), mais característico na área metropolitana do Recife, é considerado por alguns o mais antigo ritmo afro-brasileiro, com registros de 1711, enquanto o Maracatu Rural (Baque Solto) está mais ligado à cidade de Nazaré da Mata (Zona da Mata do Norte de Pernambuco), tendo como fundadores trabalhadores rurais dos canaviais entre fins do século XIX e início do XX.
A vestimenta do Caboclo de Lança, como é possível na imagem de Celia Gondim, inclui diversos elementos: chapéu de palha ornado com fitas multicoloridas; lenço colorido amarrado ao pescoço; rosto pintado de vermelho com urucum; gola coberta de lantejoulas que cobre os ombros, o peito e as costas; calça frouxa com franjas; amarração de chocalhos, às costas; lança, também chamada Guiada, com cerca de 2 m de comprimento, feita em madeira e coberta com fitas multicoloridas; óculos escuros e cravo branco preso nos lábios.
A apresentação do Caboclo é precedida de alguns rituais. Os homens cumprem uma abstinência sexual alguns dias antes e, nos terreiros, ocorre uma cerimônia de bênção da lança e da flor que ele carrega na boca, além da consagração da calunga, boneca preta que o acompanha no Maracatu.
Quanta tradição Celia Gondim nos traz!
Oscar D’Ambrosio