

Se Marcinha Moraes nos levou a refletir sobre a cultura nordestina, o artista visual Papas Stefanos encaminhou dois trabalhos que apresentam facetas desse universo próprio, peculiar e fascinante, que deve ser estudado e valorizado não apenas na Semana que lhe é dedicada de 2 a 9 de agosto, em homenagem ao falecimento do rei do Baião, Luiz Gonzaga, em 1989.
As imagens tratam de dois aspectos. Um deles é a fotografia de casais. Eram realizadas por fotógrafos conhecidos como lambe-lambe em estúdios ou em espaços públicos como jardins, praças, feiras. Seu nome popular vinha do fato de que eles lambiam as chapas de vidro em que capturavam a imagem, que depois ela era transferida para um papel.
Como apenas um lado da lâmina era revestido pela emulsão sensível à luz, e essa camada era invisível, ao lamber, o fotógrafo sentia o lado mais áspero, em que a língua colava, e isso guiava o posicionamento do vidro na câmera.
Além disso, a revelação das fotos em máquinas lambe-lambe exigia tempo mínimo de lavagem e mínima quantidade de água. Para garantir a qualidade do trabalho, os fotógrafos tocavam a língua nas fotos também para avaliar a qualidade da fixação e garantir a lavagem adequada. Enfim, o nome veio do fato desses profissionais usarem a língua em sua atividade.
O fundo utilizado nas fotografias é de chita, tecido com estampas de cores fortes. Surgiu na Índia medieval e conquistou europeus, antes de se popularizar no Cazaquistão. Foi trazida ao Brasil pelos portugueses e passou a ser produzida e vendida por valores cada vez mais baixos, tornando-o popular, sendo um símbolo de algumas festas, como as juninas.
Tornou-se assim uma referência estética na decoração, passarelas, galerias de arte, vitrines e palcos, sendo utilizada por estilistas, artistas plásticos, designers e outros criadores que se valem dessas estampas em suas produções.
Na parede do estúdio estão fotopinturas. Eram muito comuns entre os anos 1950 e 1990, sendo trabalhos típicos da cultura popular, sobretudo em cidades do interior do Nordeste. Verdadeiros artistas, os fotopintores promoviam melhorias, acrescentava cores e ampliavam geralmente fotos originais em preto e branco dos lambe-lambe.
Uma segunda imagem de Papas Stefanos é do arraial onde ocorre uma festa junina. Estão na pintura as principais tradições de uma celebração originária de Portugal em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro: as roupas próprias do interior do Nordeste brasileiro e as decorações que os portugueses trouxeram da Ásia, como enfeites de papel e balões de ar quente, hoje proibidos por questões de segurança.
Cabe lembrar que, na região árida do Nordeste, a festa para São João Batista também envolve São Pedro, pois se agradece pelas chuvas que propiciam boas safras. Como junho é a época da colheita de milho, as festividades incluem comidas feitas dele, como a canjica, a pamonha, o munguzá, o milho cozido, a pipoca e o bolo de milho.
Vejam quantas informações sobre a Cultura Nordestina é possível retirar de duas imagens...
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Oscar D’Ambrosio