
Refugiados por motivos políticos ou econômicos são um grande dilema do mundo contemporâneo. Muitas vezes a situação deles, neste momento de pandemia, acaba por ficar em segundo plano, já que as questões de saúde pública envolvendo o novo coronavírus naturalmente se tornam prioritárias, chamando a atenção das autoridades e da sociedade.
O trabalho realizado com tinta acrílica sobre papel por Wander Melo, de Rondonópolis, MT, parte de uma situação real para obter um efeito alegórico sobre o tema. A figura do cadeirante venezuelano, sem máscara, com o rosto tenso e portando um cartaz pedindo recursos, sendo empurrado por uma pessoa portando máscara, é icônica da miséria social do país vizinho.
A desproporção do tamanho do cadeirante e do seu acompanhante em relação aos automóveis remete a um quadro célebre da história da pintura: “Os fuzilamentos de três de Maio” (1814), do pintor espanhol Francisco de Goya, que mostra como, em 1808, seus compatriotas que reagiram à invasão napoleônica da península Ibérica foram mortos.
Na obra do mestre espanhol, destaca-se um homem de camisa branca, cuja posição dos braços remete a Cristo na cruz. Se ele ficasse em pé, seria um gigante em relação aos soldados com os fuzis. Analogamente, dentro de seu estilo, Wander Melo se vale do mesmo recurso, colocando aqueles que sofrem em proporção maior perante o resto das imagens do quadro. Ambos, cada qual a seu modo e em seu contexto, clamam para que as injustiças acabem.
Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br