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Arte em tempo de coronavírus (527)

Arte em tempo de coronavírus (527)
31/07/2020

A capacidade da arte de ampliar conhecimentos. Quando vemos a obra “Florescer, Flor é Ser”, de Heloize Rosa, que trabalha com um jogo sonoro no título, logo vêm à mente os versos de Carlos Drummond de Andrade no poema “A Flor e a Náusea”: “Uma flor nasceu na rua!/ Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego./ Uma flor ainda desbotada/ ilude a polícia, rompe o asfalto./ Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/ garanto que uma flor nasceu.”

Publicadas em 1945, no livro “A rosa do povo”, portanto, em pleno espírito da Segunda Guerra Mundial, as palavras do poeta mineiro encontram ressonância na atual realidade, em que um inimigo está à espeita. O adversário, agora invisível, é diferente, mas a atmosfera de vidas perdidas e de insegurança é semelhante em diversos sentidos.

O trabalho de Heloíze Rosa, ao colocar flores fechadas enclausuradas em meio a escombros, funciona como uma metáfora de um momento histórico peculiar em que a beleza, por mais que exista e resista, se encontra impedida de vicejar com plena intensidade. As barreiras são de toda ordem, desde as sanitárias às psicológicas.

As linhas retas e tonalidades ocres das vigas trancam o florir do calor e da perspectiva de movimento que a natureza comporta. Pessoas, sentimentos, sonhos e desejos, nesse aspecto, foram e estão trancafiados à espera da oportunidade de se desenvolver plenamente, talvez, com a descoberta da cura ou de uma vacina contra a COVID-19.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br